[livraria, quarenta graus]

freguês curtindo o verão da forma correta: na praia


desde o começo do ano, toda vez que eu chego na livraria, cantarolo mentalmente o seguinte clássico: "só alegria nós estamos no verão, mês de janeiro, são paulo, zona sul. todo mundo à vontade, calor, céu azul, eu quero: aproveitar o sol." aproveitar o sol, como fas? olho ao meu redor e não vejo ninguém aproveitando o sol, muito pelo contrário: livraria com freguês pendurado até no globo terreste decorativo da loja e crianças transformando o lugar em um hospício mirim. alô, seu psiquiatra, trinta dias de licença para a livreira sim ou claro? janeiro é sempre assim: férias da garotada, pais completamente pirados por causa do material didático (beijo pra freguesa que foi ontem, oito de janeiro de dois mil e treze, com uma lista de 2011) e, claro, inferninho de quarenta graus. que vibe. mas vamos aos causos:

freguês: moça, tem o livro "veneno maldito", da companhia das letras?

livreira: bom dia.

(sim, freguesia, estamos no projeto "bom dia, por favor e obrigado são fundamentais". você não fala, mas a gente fala pra você)

freguês (sem jeito): bom dia, tem esse livro, o "veneno maldito"?

(livreira consulta no terminal e não encontra nenhum título parecido. não que seja da companhia das letras)

freguês: ai, moça, é veneno alguma coisa, "veneno que mata", talvez? não sei, só sei que é dessa editora aí.

(adoro quando vocês começam a inventar?)

livreira: olha, não mesmo. será que não é esse (apontando para o título no monitor) do javier marías?

freguês: menina, esse mesmo.


manual prático de bons modos em livrarias: é muito sol na cabeça, a gente entende. é claro que a gente entende.

[oi, 2013]

                                                             livreiros em ritmo de festa
 

dia quente de dezembro, véspera de natal, livraria mais lotada que a praia de copacanaba no reveião. livreiro desinibido e dando sopa (porque a freguesia acha que livreiro parado é livreiro dando sopa) é abordado por freguesa portuguesa.

freguesa (ansiosa, abanando o livro): moço, não tem preço?

(preço, minha senhora? estamos numa ONG, é só colocar na bolsa)

livreiro: dê aqui, vamos verificar na maquininha (BIP!). a senhora faz parte do nosso programa de fidelidade? é que esse tá com preço promocional para quem é filiado.

freguesa (demonstrando muita felicidade): AHHHHH, E HOJE AINDA É FERIADO?

manual prático de bons modos em livrarias: alô, carlos alberto de nóbrega, rola um revival daquele quadro querido d'a praça é nossa?

[puro amor]




delírio compartilhado pela freguesa daniele cristyne.

freguesa: moça, tem esse aqui, só que do corinthians?

manual prático de bons modos em livrarias: gente, sério, amo vocês. e o botão "ironia" nem está ligado.

[clarice xavier]

tô aqui psicografando umas paradas


nove dias para o fim do mundo, graças a deus. livreira tem certeza que já está morta, no inferno, por motivos de: muito calor, socorra. daí a freguesa, uma linda, toda trabalhada no sotaque (sotaque mineiro, melhor sotaque sim ou com certeza?), aborda o livreiro em busca de novas emoções literárias. ó:

freguesa (olhando para a mesa de lançamentos): moço, eu sou de minas, então quero saber o que tá bombando aqui na cidade de vocês?

(o que tá bombando na cidade? o sol, minha senhora, o sol)

livreiro: olha, de novidade, nós temos...

(livreiro mostra uma dezena de livros para a freguesa, que não vê graça em nenhum)

freguesa: ai, eu quero ler algo bom. o que você me indica?

livreiro: a senhora já leu clarice lispector?

freguesa: CLARICE? DEUS ME LIVRE, DETESTO CLARICE LISPECTOR.

(ai, gente, sabe. ok, tudo bem não gostar de clarice, mas dói o coração quando alguém fala isso como se fosse a coisa mais natural do mundo? tá, é normal, mas gente?)

livreiro: não gosta da clarice, é?

freguesa: DETESTO. DETESTO LIVRO ESPÍRITA.

(BOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOM)

manual prático de bons modos em livrarias: delírio é pouco. "clarice autora de livros espíritas" ainda não tem nome. sério, podemos encerrar 2012, o mundo, a vida.

[a vez do freguês]





dor compartilhada pelo freguês pedro de moraes lá na nossa comunidade hippie. e, olha, apaixonada pelo senhor gabriel garcia marquez, quase tive um derrame ao ler o causo. socorra, produção. alô, bombeiros. e, pedro, seu lindo, nem precisei mexer no seu texto, cê aprendeu direitinho a lição. muito: amor. vem, gente:

freguês: boa tarde, moça! você tem algum exemplar d'o amor nos tempos do cólera, do gabriel garcia marquez?

(livreira digita o título no terminal e puxa assunto ao mesmo tempo)

livreira: você gosta de histórias de amor?

(sim, também gosto de histórias de diarreia intensa)

freguês: ah, até gosto, mas esse vai de aniversário pra minha cunhada.

livreira: então, tô vendo aqui que não tem esse aí que você pediu. está atrás de mais algum específico?

freguês: hum... nenhum que eu lembre. tem alguma sugestão?

livreira: como você tá atrás de romances, por que não leva o cinquenta tons de cinza?

(peça Garcia Marquez e ganhe em troca E.L. James. fair enough.)

freguês: ah, não sei se esse é o tipo de livro que eu daria de presente.

(disfarço sarcasmo com puritanismo)

livreira: que tipo de livro você daria de presente?

freguês: o amor nos tempos do cólera.

livreira: uai, não dá no mesmo?

freguês: ...

manual prático de bons modos em livrarias: cara livreira, don't. just don't.
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