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AAA

hahaha

O vídeo acima é uma encenação do grupo norte-americano The Generic Theater. Porém, quem trabalha em livrarias sabe que vai ter que lidar, diariamente, com cenas muito mais desconcertantes. É freguês que grita na entrada da loja, é freguesa que berra pra perguntar se ninguém vai ajudá-la, é freguês que se esgoela do segundo andar para o atendente que está no primeiro, enfim, tem de tudo. O mais curioso é que a galera faz isso na maior curtição, sem qualquer cerimônia. Eu, hein? Particularmente, lembrei aqui de um freguês que, revoltado porque ninguém na livraria lia ou conhecia livros "suficientemente tristes", começou a gritar barbaridades:

- MAS SERÁ QUE NINGUÉM AQUI NUNCA MORREU DE CÂNCER?

(meu senhor, não me faça morrer de desgosto cerebral)


manual prático de bons modos em livrarias: faça colagens com revistas da Avon, faça lambaeróbica, faça uma viagem ao centro da Terra, faça o que você quiser, mas não faça barulho no ouvido alheio. não faça barulho no ouvido de gente que você não conhece. é feio. candidatos, vamos manter o nível do debate, candidatos. obrigada fregueses, vamos manter o nível. obrigada.

[Indicaí]



- Ér, veja

[amor compartilhado por livreiro amigo]

Freguês: Por favor, meu rapaz, estante de literatura gay?

(Taí uma coisa que eu não entendo, mas é assunto pra depois. O que o freguês procurava, na verdadade, eram livros de arte com imagens eróticas)

Livreiro: O setor de Artes fica no piso superior.

Freguês: E guia de turismo GLS?

Livreiro: Olha, moço, não conheço nenhum, mas se tiver, acredito que fique lá também. Os guias de viagem ficam todos no segundo andar.

Freguês: E sauna gay aqui na cidade, qual que você me indica?



Manual Prático de Bons Modos em Livrarias: Menas, freguesia. Menas, por favor.
[não]

                 
                                                   zzZZzzzZzzz



- moça, chico buarque e vinicius de moraes são a mesma pessoa?
- não.

- oi, tem como você ver a programação do cinema, por favor?
- não.

- vocês vendem flauta?
- não.

- por favor, vocês vendem "protetor de tela" pra computador?
- não.

- vocês vivem mudando tudo de lugar, onde foi parar o café da livraria?
- continua no mesmo lugar.
- ah, então não mudaram?
- não.

- moça, onde fica a parte de material escolar?
- não temos.
- então aquela placa "volta às aulas" é propaganda enganosa?
- não.

- tem aquele livro novo chamado"danuza"?
- não, mas tem o "é tudo tão simples", serve?
- esse é o nome do livro? é que está escrito danuza tão grande na capa.
- não, não, não.

- lindinha, tem como me dar um desconto?
- não, o livro já está com um preço bom.
- ah, mas você não pode fazer nada por mim?
- não, eu só sou uma pessoa com um crachá no peito.
- nossa, que deprê! você ganha mal aí?
- sim.
- uns 700 reais?
- menos.
- NOSSA.

manual prático de bons modos em livrarias: não.

[livreira em seu dia de freguesa]



e depois da ressaca de ano novo e do carnaval com muita gente causando na telinha da tevê, o ano finalmente começou. logo, chegou o momento de colocar a livraria em ordem e cada livro no seu quadrado. enquanto organiza a estante de psicologia, livreira nota uma freguesa enlouquecida à procura do santo graal.

- oi, você precisa de ajuda?

(quem sou eu pra perguntar esse tipo de coisa, não é mesmo?)

- então, eu estive aqui ontem e não estou encontrando o livro que vi bem aqui.

(como não está encontrando? tô arrumando essa estante desse ontem, sua linda. a pergunta é: freguesa escondeu o livro sim ou claro?)

- hm, sei. e qual era o nome, você lembra?

- lembro sim, era o "sem medo de ter medo", sabe?

(livreira lembra do título, da cor da capa, do número de páginas e, principalmente, de ter visto o livro em algum lugar do maravilhoso mundo mágico da livraria, mas kd?)

- sei, sei qual é. engraçado, realmente estav...

(em menos de dois segundos, livreira recorda-se do crime inafiançável cometido por ela no dia anterior. envergonhada da cabeça aos pés, admite a culpa sem conseguir estabelecer contato visual com a freguesa)

- ah, olha ele aqui "escondidinho". é que eu tinha separado para comprar e deixei na minha reserva pessoal.

(freguesa completamente passada com o absurdo da situação, pega o livro e foge como se não houvesse show do morrissey daqui a alguns dias. vish)

manual prático de bons modos em livrarias: relutei em compartilhar o causo acima, mas como o amor impera nesse "espaço cultural", nada mais importante do que rolar essa sinceridade toda . mas, ó, continuem me amando e não esqueçam os bons modos: nada de esconder livros, crianças.
[gente normal]


contrariando as expectativas de muita gente que lê o blog, trabalhar em livraria não consiste apenas em atender uma freguesia muito louca de bala e querer morrer quando alguém pede "raízes abertas do brasil" ou a nova biografia do sr. fernando henrique, "8/80". não, senhoras e senhores, além de carregar pilhas de livros para lá e para cá, brincar de caça ao tesouro quando alguém resolve tirar algo do lugar, perder sábados, domingos e feriados, o livreiro precisa estar disponível e ser solícito o tempo todo, mesmo quando o bode da gripe te pega e o telefone toca.

- livraria x, boa tarde?

- oi, eu queria dsfklh et ç~f.

(livreira, que está sem voz há quase dois dias, pede para a freguesa falar mais alto)

- então, eu queria fklhkfhsafnsa,mf.

(pronto, agora além de parcialmente muda, a livreira também está surda, produção?)

- senhora, desculpe, mas não consigo entender o que a senhora está dizendo...

- MINHA FILHA, QUEM NÃO ESTÁ ENTENDENDO SOU EU. QUE VOZ É ESSA? DÁ PRA VOCÊ PASSAR O TELEFONE PRA ALGUÉM QUE SEJA NORMAL?

manual prático de bons modos em livrarias: claro, até porque ser normal, hoje em dia, é não ter educação nem na fila de recarga do bilhete único. parabéns, fregueses, vocês me matam de orgulho. só que não. 
[alô mirtes!]





freguesa: - oi, você trabalha aqui?

(próximo concurso cultural será com essa temática sim ou claro?)

livreiro: - sim, senhora, eu trabalho.

(freguesa enfia a mão na bolsa e puxa um celular)



freguesa: - então recarrega pra mim com 25 reais?



*BOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOM*


manual prático de bons modos em livrarias: estamos quase lá, feras. vender sabão em pó na livraria é nosso maior sonho. acreditem.
[bang bang]

amor compartilhado pelo freguês @djee

(sábado à tarde. livreiro bem vestido, bem lindo, todo trabalhado nas últimas tendências da moda, circula pela livraria LOTADA, com crianças enlouquecidas e pais..OH WAIT, não há pais pelo local. de repente, ao passar pela entrada da livraria, percebe uma estranha movimentação do lado de fora)

- I TOLD YOU! LOOK! I TOLD YOU!

(era uma mulher fazendo a vibe vlogger louco, gritando. livreiro olha para o corredor do shopping e dá de cara com três sujeitos encapuzados, carregando metralhadoras. TODOS GRITA. TODOS CORRE. PÂNICO. livreiro escuta alguém dizer que vai fechar a porta, mas não pensa duas vezes e corre até a saída de emergência, acompanhado pela freguesa gringa)

- THIS WAY!

(livreiro mostra a saída para a freguesa e correndo como se não houvesse amanhã,  acaba saindo do shopping. (HAHA) ele corre tanto, mas tanto, que vai parar em um MORRO, onde estava sendo realizada uma OBRA e havia, senhoras e senhores, até um trator. com a palavra, a vítima: "eu só percebi o desespero quando notei que estava agachado atrás de uma das rodas do trator, com o telefone (sem fio) da livraria no bolso. mesmo tremendo, resolvi ligar para a loja.")

- GENTE, O QUE ACONTECEU? POSSO VOLTAR?

- mas meu deus, onde você está? não foi nada demais.

(sua louca, não foi nada demais? eu quase fui assassinado!)

- GENTE, EU ME ASSUSTEI. POSSO VOLTAR?

- HAHAHAHAHAHAHAHAHA.

(q)


manual prático de bons modos em livrarias: prezados assaltantes, a gente compartilha da opinião de que roubar livros/cd's/dvd's não deveria ser considerado crime em nenhum lugar do planeta, visto que vocês estão tentando adquirir conhecimento através da "arte". mas, por favor, nos deixem fora do assunto, certo? obrigada.


up: confesso que pouco entendi do causo, mas nada vai me tirar da cabeça a imagem de um livreiro correndo pelo shopping com o telefone da livraria em mãos. 
[fregueses x computadores x livrarias x lanhouses]


amor compartilhado pelo freguês leonardo. ♥

(mais uma tarde de labuta. chega 2012, o mundo acaba, mas outubro não termina. enquanto pensa na revolução dos bichos em wallstreet, livreiro é abordado por um freguês deveras educado)

- olá, boa tarde. gostaria de encomendar um livro, por favor.

(livreiro faz todo o processo da encomenda, sem acreditar naquele raro atendimento cheio de paz e equilíbrio natalino. porém, a vida é uma caixinha de surpresas explosivas, não é mesmo? pois bem, o freguês, já com o recibo de pagamento do pedido em mãos, faz a seguinte pergunta)

- se não for incômodo, você poderia consultar o cinema pra mim?


- o senhor deseja consultar se temos algum filme disponível?

- não, eu quero saber a programação do cinema. você pode ver o que está passando no cine X ou no cine Y? pode verificar aí no seu computador?

(claro que podemos! também fazemos o seu mapa astral por apenas 9,90 por mês! faça o seu cadastro agora mesmo aqui)


manual prático de bons modos em livrarias: o freguês do causo acima até que foi banhado de amor e pediu para o "mocinho" verificar. porém, não é raro encontrar gente da clientela mexendo nos computadores da livraria para acessar o twitter, ver a programação do teatro, o endereço do motel mais próximo, dentre tantas outras coisas. QUÉDIZÊ, nem pra consulta de livro é. daí o que a gente faz? dá na cara do freguês? claro que não. e por que? porque livreiro é tudo "maravilhoso, conselêro, deus forte, pai da eternidade e princípe da paz". não sabe se pode usar o terminal de consulta de determinada livraria? pergunte. já foi dito aqui uma vez e fazemos questão de repetir: nós não mordemos e o amor rola solto.
[tirem as crianças da sala]

piquititico assim ó

minha gente, eu costumo redigir os causos que vocês me enviam, antes de publicá-los aqui no manual. é um cuidado que eu tenho, gosto de deixar todos com o mesmo formato e mimimi. sofremos de toc? sofremos. mereço ser amada ainda assim? mereço. no entanto, hoje recebi algo tão ________ (insira aqui o seu adjetivo psicodélico favorito), que não tive coragem de mudar uma vírgula sequer. e, olha, já adianto: o causo é polêmico e não deve ser lido, em hipótse alguma, por crianças menores de oitenta anos. sendo assim, tire a sua sandy da sala, pegue a sua pipoca caseira e venha ficar verde que te kero koko.

amor compartilhado pelo freguês diogo. ♥

"meu PRIMEIRO DIA como livreiro. loja lotada, evento de lançamento no fundo da loja e eu, novato sorridente, andando pela loja pra me familiarizar com o ambiente, seções etc. passando perto da seção de fotografia, um senhor de tipo 50 e alguns anos me chama:

- mocinho, mocinho, por favor.

(já começa aí, né. mocinho meu cu)

- q

- sobre o que é esse livro? *THE BIG PENIS BOOK*

(começo a tremer, obviamente, porque, né, oi, é um livro de PAU GRANDE SENHOR)

- então, é um livro assim, meio engraçado, de fotografias antigas de homens que têm.. ahm, digamos: homens avantajados, sabe? tem também dos seios e vai sair o da bunda.

- NOSSA, achei incrível.

dai o senhor começou a falar sobre a admiração que ele estava sentindo ao ver tal livro, e como era surreal e como ele duvidava que era verdade. comecei a me afastar, mas ele sempre me chamava pra mostrar no dedo algum DETALHE que ele tinha achado interessante. chegou a dizer que "esse aqui equivale a um fist fucking, não acha?"

no final das contas, só me lembro que o nego virava uma taça de vinho atrás de outra e ficava me rodeando. quando a loja acalmou, ele chegou em mim e disse que tinha gostado da minha camisa e tentou abir um botão. SIM, JURO. dai eu surtei, sai correndo, comentei com uma amiga livreira "TEM UM CARA ME ASSEDIANDO HELP" mas, né, af, novato. bom, me afastei do cara e subi pro mezanino (onde ficam os banheiros) e quando to descendo de novo, bingo. tá o velho na porta do banheiro com a benga de fora me chamando 'VEM CÁ, VEM'.

sim, o cara mostrou o pinto pra mim na livraria.
resultado: TRAUMA.

episódios parecidos se repetiram incontáveis vezes na minha vida de livreiro, como quando um homem casado queria sair comigo porque a esposa dele "não fazia direito" e o cara que fingiu encomendar um livro só pra eu anotar meu telefone no papel pra ele me ligar depois."


manual prático de bons modos em livrarias: avc eterno.
[sexta do freguês - dia 2]

relato da freguesa julia rocca, que pediu suco de maracaujá e, enfim:

freguesa: oi, eu queria dar uma olhada nos livros sobre o autor que eu estudo no mestrado. tem como você consultar pra mim? o nome dele é wittgenstein.

(ela me mostra na tela os livros e verificamos que não há nenhum deles disponível na livraria. tudo bem, normal, sem problemas, afinal wittgenstein não é assim tão fácil de achar)

livreira: você não quer dar uma olhada nos livros do heidegger? do heidegger a gente têm!
(cadê o orelhão pra gente ver a diferença entre alhos e bugalhos?)

freguesa: er... não. obrigada. deixa pra outro dia. por enquanto vou continuar estudando o wittgenstein mesmo.

manual prático de bons modos em livrarias: caros colhégas, a freguesa pede pra avisar que filósofos com nome esquisito não são tudo uma coisa só.
[alô, mirtes? fala rápido, eu tô no orelhão!]


amor compartilhado pelo freguês v., dono absoluto do meu coração por ter enviado 215 causos de uma só vez ♥


freguês: boa tarde, vocês têm "orelhão"?

(a gente já chegou num estágio que... enfim, até explicar cansa. bóra ser educado e apenas responder a pergunta do jovem)

livreiro: olha, tem no shopping, senhor. é só seguir o corredor e virar à direita.

freguês: como assim, não tem aqui na loja de vocês?

(e a vontade de responder: aqui não, mas no mc donalds tem um com molho especial)

livreiro: não. não tem orelhão aqui, senhor.

freguês: COMO NÃO? vocês não vendem orelhão aqui?

(EU HEIN?! "como não?" oi? estamos falando da mesma coisa, bial?)

livreiro: vender... orelhão? cartão? ficha telefônica?

freguês: não, dicionário! aquele dicionário grandão!!!

(pedro de lara lá lá lá lá lá lá)

livreiro: ah, o aurélio. só um instante.

manual prático de bons modos em livrarias: fregueses alfabetizados na língua francesa, por favor, colaborem. nosso cursinho de idiomas é basicamente musical. obg.
[o livro roxo de jung]


- mocinho, por favor, você tem esse livro, só que roxo?

(sim, a freguesa estava apontando para "o livro vermelho". livreiro pensa em ter um avc, mas desiste da ideia e resolve desenvolver o assunto)

- como assim, minha senhora?

- então, é que eu estou decorando um ambiente e preciso de três metros de livro roxo. tem como você me arranjar esse livro grandão, só que roxo?

(esse livro grandão, só que roxo)

manual prático de bons modos em livrarias: ALÔ SAMU, MANDA UMA AMBULÂNCIA PRA ONTEM.
[dumb people x nice people]

amor compartilhado pelo freguês zé. :)

freguês: boa tarde, vocês tem o dvd x?

livreiro: sim, nós temos. qual o senhor quer, o "simples" ou o "duplo, edição especial"?

freguês: DUPLO...?! não, eu quero a versão simples mesmo. até parece que eu vou pagar mais caro para ver o filme duas vezes.

manual prático de bons modos em livrarias: i die. juro. i die.
[amy sings frank]

- boa noite, você tem aquele cd que a amy winehouse canta músicas do frank sinatra?

(olha, esse tipo de pergunta é tão desconcertante quanto dizer que o rock in rio é importante para que o mundo seja melhor)

- frank sinatra? amy? o senhor tem certeza?

- sim! é aquele disco chamado FRANK, sabe?


manual prático de bons modos em livrarias: li em algum lugar, não lembro onde, que amy winehouse está preparando um cd só com músicas da ione (isso, aquela que não é cantora, mas jornalista).
[globalização, a gente vê por aqui]

amor compartilhado pelo freguês matias minduim. ♥



(cenário: livraria prestes a encerrar as suas atividades daquele dia. como a gente já falou aqui, final de expediente é o momento em que os fregueses adoram testar a nossa simpatia. para não fugir à regra, um casal surge no local à procura de confusão. livreira, na tentativa de não estender o horário de trabalho, resolve abordar a freguesia)

- olá, precisam de ajuda?

*silêncio*

(livreira, acostumada com os turistas estrangeiros, que passeiam pelo centro de são paulo, tenta uma novo approach)

- speak english?

*silêncio*

- parlez-vous français?

*silêncio*

- sprechen deutsch?

*silêncio*

- parla italiano?

*silêncio*

(senõr! comofas/ em libras? livreira, que não consegue arrancar um sorriso sequer dos fregueses, no desespero, solta em língua pátria)

- afinal, que língua vocês falam?

(um dos fregueses, aparentemente aterrorizado, meio sem jeito, responde)

- ér, português?.

(hahaha)

manual prático de bons modos em livrarias: só eu acho que o grego deveria ser adotado como língua oficial em todas as livrarias e bibliotecas e sebos desse meu brasil?
[de volta para o futuro, um romance de jane austen]



(seção de literatura, o lugar onde a magia insiste em permanecer entre nós, mesmo quando a loucura quer tomar conta do pedaço. enquanto guarda alguns livros na estante, livreira escuta a conversa deslumbrada entre duas freguesas diante da obra da autora jane austen. algo sinistro, muito sinistro, estava prestes a ser dito)

- essa mulher era genial. eu já li toda a obra dessa escritora, absolutamente tudo.

(haha gente, desculpa, mas ficar se gabando por ter lido a obra completa da jane austen é o mesmo que querer uma medalha por ter lido todos os quatro livros do salinger)

- e qual deles você me indica?

- ah!, "desejo e reparação". "desejo e reparação" é lindissimo, é maravilhoso!

(maravilhoso? ora, maravilhoso vai ser o dia em que o divino espírito santo me conceder a tão sonhada audição seletiva. sério mesmo)

manual prático de bons modos em livrarias: ian mcewan mandou aquele abraço. e também mandou dizer que o nome do livro DELE é só "reparação". francamente, viu.
[tiau. até amanhã]

livreiro e o desespero diário do final de expediente

(domingo à noite. faltam poucos minutos para a livraria encerrar o expediente. embora o anúncio de fechamento já tenha sido dado por duas vezes, grande parte da freguesia insiste em procurar por aquele livro que, obviamente, não vai levar para a casa. livreiro, ao perceber o desespero de um determinado freguês próximo à estante de filosofia, decide ajudar)


- boa noite, o senhor procura algo específico?

- sim, ó, estou com uma lista de livros e gostaria de fazer um orçamento.

(uma lista. veja bem, faltam cinco minutos para o término do expediente e o freguês tem uma l-i-s-t-a na manga. JESUS CHRIST SAVE US)

- tudo bem, vamos lá.

(a lista tem aproximadamente 30 livros e, claro, a maioria dos títulos está errada, falta autor, não há isbn, ou seja, será necessário consultar um a um no google para que o orçamento seja feito da forma mais precisa possível)

(MUITOS minutos depois) - o senhor quer que eu envie por e-mail ou prefere que eu imprima a lista?

- não, não. agora você pode pegar todos, por favor? é que eu quero dar uma olhada.

manual prático de bons modos em livrarias: minha gente, o ocorrido acima não é um caso isolado. diariamente, muitos fregueses testam a nossa simpatia e o nosso bom mocismo praticando, sem dó, esse ato de extrema crueldade. e isso não acontece só em livrarias, acontece em qualquer setor do comércio. e, olha, é de uma falta de respeito/compaixão/educação ímpar. percebeu que a livraria vai fechar? GO AWAY de MOONWALKER, please. até entendemos que somos o puro creme de milho de piracicaba, mas, deixa eu te contar, tudo tem limite. : )
[trollando o namorado]


freguesa: - moça, fora todos esses (imagem acima), existe mais algum do pedro bandeira, da coleção "os karas"?

livreira: não, não tem. é pra você?

freguesa (envergonhada): não, é pro meu namorado (que estava ao lado da freguesa)

namorado da freguesa (e seus 25 e poucos anos): EU JÁ LI TODOS.

freguesa (envergonhada, mas sem deixar a grosseria escapar entre os dedos, rebate): cê quer uma medalha por isso?

(livreira acompanha tudo em silêncio, sem mover um único músculo do rosto. tenso)

manual prático de bons modos em livrarias: depois cê não sabe porque tá aí sozinho no dia dos solteiros, né? mimimi.
[será que ele é?]



(sábado de carnaval em agosto. AE! pura folia. livreiro atarefadíssimo, com milhares de livros para guardar, cliente para atender, telefone tocando, e-mails para responder, faxes para arquivar, entre outros. num momento de aparente calma, resolve guardar livros de ficção científica, para aliviar os balcões e repor as compras das fãs apaixonadas de vampirinhos. enquanto guarda, começa a ouvir um assobio e, ao olhar para o lado, vê um senhor idoso, todo bonachão, que vira para si e diz:)

- é o canto do uirapuru, só canta uma vez por ano.

(oi? oi, vem cá, alguém perguntou alguma coisa? livreiro, atônito, continua guardando os livros. o idoso, aquele danado, todo malicioso, não satisfeito, pega um livro de uma mesa qualquer e mostra a capa ao livreiro)

- hm, "ELAS". "ELAS". alguns gostam delas, mas alguns gostam deles. não é?

(livreiro, todo trabalhado na sinceridade, não deixa barato)

- eu gosto deles.

(o idoso, que já estava próximo à saída da loja, vai embora. livreiro sente que, em breve, ele voltará com um buquê de flores. ♥)


manual prático de bons modos em livrarias: hahahah gente. tô rindo até agora, licença.
[a arte de não ter educação]




freguesa 1: moça, posso te fazer uma pergunta do além?

(costumo dizer que um dia de trabalho que começa com "oi, você tem aquele livro que tem a maria do bbb na capa?" não pode ser um bom dia)

livreira: claro

(tô aqui a passeio mesmo)

freguesa 1: então, é um livro não sei o quê lá espanhol. cê sabe qual é?

(ai, filha, cê é um arraso na simpatia, mas eu tô com enxaqueca e a vontade de viver kd/)

livreira: putz, não faço idéia. mas você sabe como era a capa, alguma coisa?

(enquanto a freguesa 1 tenta puxar da memória algumas informações, entra em cena a freguesa 2, praticamente gritando)

freguesa 2: OI VC TEM O LIVRO ABSURDA/

(olha, eu sou do tempo do "por favor", "com licença", "desculpe" e "obrigado", portanto não sei lidar muito bem com gente maleducada. a única coisa que consigo pensar quando alguém me aborda dessa maneira é nos cinco minutos iniciais deste vídeo. um dia, ah, um dia, eu ainda vou fazer a amy)

livreira: só um instante que eu já vejo pra você, estou atendendo essa moça.

freguesa 1: você, pelo menos, sabe o título do seu livro.

freguesa 2, blasé e toda trabalhada na falta de bom humor: vou ali tomar um café.

freguesa 1: ela bem que podia ser mais educada, né? mas tudo bem, estou acostumada com a parte boçal da raça humana e a existência dela não faz a menor diferença.

( ♥♥♥♥♥♥♥♥♥♥♥♥♥♥♥♥♥♥ freguesa 1, aquela linda, salvou o meu dia e ganhou meu coração INTEIRO. claro, fiz questão de revirar o google para achar o tal livro do espanhol, que era o lindo "a máquina de fazer espanhóis", do valter hugo mãe, aquele muso)

manual prático de bons modos em livrarias: a gente já falou aqui como é complicado estar ao telefone e nêgo ficar do seu lado, fazendo mil perguntas. mais complicado ainda é estar em um atendimento e alguém ficar te encarando, bufando, salivando, louco para devorar a sua ALMA. criançada, veja bem, livreiro não é malabarista, ou seja, um atendimento por vez e o mundo estará a salvo de livrarias com senhas.
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