GUESS WHO'S BACK?


saudades do manual? ou saudades dos causos? 

saudades de mim, talvez?

muito que bem, eu voltei a escrever sobre os meus causos, só que aqui, na Obamaland.

vão me visitar e agradecer 2016 por eu ter voltado (eu sei que vocês estavam com saudades).

coração com as mãos,

:*

p.s.: eu não trabalho mais em livrarias, mas se algum livreiro quiser compartilhar alguma desaventura, manda pra mim no: ldorea arroba gmail. :)

A vez do freguês #02


amor compartilhado pela ludmila rodrigues // envie o seu causo através da fanpage do [manual]


Freguesa: Oi, tem 'Barba Ensopada de Sangue'?

Livreira (assustada): Barbie ensopada de sangue???

manual prático de bons modos em livrarias: vocês me deixam estarrecida.

AAA

hahaha

O vídeo acima é uma encenação do grupo norte-americano The Generic Theater. Porém, quem trabalha em livrarias sabe que vai ter que lidar, diariamente, com cenas muito mais desconcertantes. É freguês que grita na entrada da loja, é freguesa que berra pra perguntar se ninguém vai ajudá-la, é freguês que se esgoela do segundo andar para o atendente que está no primeiro, enfim, tem de tudo. O mais curioso é que a galera faz isso na maior curtição, sem qualquer cerimônia. Eu, hein? Particularmente, lembrei aqui de um freguês que, revoltado porque ninguém na livraria lia ou conhecia livros "suficientemente tristes", começou a gritar barbaridades:

- MAS SERÁ QUE NINGUÉM AQUI NUNCA MORREU DE CÂNCER?

(meu senhor, não me faça morrer de desgosto cerebral)


manual prático de bons modos em livrarias: faça colagens com revistas da Avon, faça lambaeróbica, faça uma viagem ao centro da Terra, faça o que você quiser, mas não faça barulho no ouvido alheio. não faça barulho no ouvido de gente que você não conhece. é feio. candidatos, vamos manter o nível do debate, candidatos. obrigada fregueses, vamos manter o nível. obrigada.

Perguntas de um trabalhador que lê

arte Burkhart


Quem construiu a Tebas de sete portas?
Nos livros estão nomes de reis:
Arrastaram eles os blocos de pedra?

E a Babilônia várias vezes destruída
Quem a reconstruiu tantas vezes?

Em que casas da Lima dourada moravam os construtores?
Para onde foram os pedreiros, na noite em que a Muralha da China ficou pronta?

A grande Roma está cheia de arcos do triunfo:
Quem os ergueu?
Sobre quem triunfaram os Césares?

A decantada Bizâncio
Tinha somente palácios para os seus habitantes?

Mesmo na lendária Atlântida
Os que se afogavam
gritaram por seus escravos
Na noite em que o mar a tragou?

O jovem Alexandre conquistou a Índia.
Sozinho?

César bateu os gauleses.
Não levava sequer um cozinheiro?

Filipe da Espanha chorou,
quando sua Armada naufragou.
Ninguém mais chorou?

Frederico II venceu a Guerra dos Sete Anos.
Quem venceu além dele?
Cada página uma vitória.
Quem cozinhava o banquete?

A cada dez anos um grande Homem.
Quem pagava a conta?

Tantas histórias.
Tantas questões.


Perguntas de um trabalhador que lê
Bertolt Brecht

Horário de Verão




Não basta ser domingo. Tem que ser o primeiro domingo do horário de verão. E não basta ser o primeiro domingo do horário de verão. Tem que ser tudo isso e ainda ter que bater ponto, às dez da manhã (amigos do comércio, abraço coletivo aqui). A seguir, um causo nível tranquilo, presenciado por mim em uma livraria perto de casa.

Freguesa: Será que você pode me responder uma pergunta?

(uma não, várias. se tem uma coisa que livreiro adora, além de ouvir telefone tocar o dia inteiro, é responder perguntas. sobre tudo, inclusive. perguntas sobre livros, autores, receitas, remédios, eleições, animais de estimação, tempestades tropicais e outros que tais)

Livreira: Claro.

(freguesa tira um celular da década de 30 da bolsa e chega ainda mais perto da livreira)

Freguesa: Você sabe como eu faço pra arrumar o relógio do telefone? É que a menina do meu trabalho arrumou no ano passado e eu não me lembro comofas.

(mas tá de parabéns a pessoa que sai da sua residência e procura uma livraria pra ajustar o telefone do celular? sim, está. livreira pega o aparelho, observa minunciosamente a peça de museu e devolve para a freguesa)

Livreira: Senhora, não sei. Talvez tenha um tutorial na internet?

Freguesa: Tutorial?

(astronauta?)

manual prático de bons modos em livrarias: não sabe ainda que horas são? pois agradeça ao hora certa pela graça alcançada agora.

Salve Jorge!


"Moça, tem 'Caldeirão de Areia'?"

A vez do freguês #01


amor compartilhado pela jessyca  medeiros. // envie o seu causo através da fanpage do [manual


Freguesa: Oi, boa tarde, tem alguma coisa do Gabriel García Marquez?

(livreira, muito solícita, leva a freguesa até a estante de literatura e tenta ajudar)

Livreira: Qual é mesmo o nome do livro do Gabriel que você está procurando? 'Alguma Coisa', certo?

(aaa)

manual prático de bons modos em livrarias: gabo nosso que estais no céu, olhai pelas pessoas tudo do mundo. amém.

Líbia Soares

tentando psicografar a mente insana de vocês

amor compartilhado pela amanda sanches // envie o seu causo através da fanpage do [manual]

Freguesa chega na livraria e dá um passeio pela sessão de livros espíritas. Não encontrando o livro que procurava, dirige-se à livreira e o seguinte diálogo ocorre:

Freguesa: Moça, tem um livro espírita que fala sobre como as pessoas que estão, assim, pra baixo sabe, como elas estão sendo na verdade atormentadas por espíritos ruins?

(cadê a sessão de livros pra ajudar a gente a segurar o imenso forninho que é a vida?)

Livreira: Moça, por tema assim eu não me lembro de nenhum título. Sabe o nome do autor?


Freguesa: Ai, eu acho que é Líbia... Isso, acho que é isso... Líbia Soares. Isso, essa mesmo. Líbia Soares.

(google, quem é líbia soares na fila do bilhete único?)

Livreira: Bom, eu não conheço essa autora, mas eu vou procurar no sistema pra ver se tem algum título dela... (Muitas pesquisas depois...) Olha, moça, Líbia Soares não aparece em nenhum livro espírita. Tem certeza que é ela? Não é a Zíbia Gasparetto, não?


Freguesa: ISSO! Exatamente... essa mesmo!


[manual prático de bons modos em livrarias]: ér.

eAuthor


E o fim da era boca-livre das noites de autógrafos está próximo. O pessoal que organiza os eventos agradece.


The eBook is on the table



"Onde fica a prateleira de eBooks?" ou "Vocês vendem eBooks aqui na livraria?". Custo a entender o que faz alguém sair de casa para comprar livro digital em uma livraria física, mas não duvido que isso tem acontecido com cada vez mais frequência, afinal: fregueses. Daí que o telefone tocou dia desses, fui atender e não era o meu amor. A moça (sim, uma jovem) estava bastante confusa do outro lado da linha e foi assim:

Livreira: Alô, boa tarde?

Freguesa: Oi, boa tarde. Eu tô falando com o departamento de vendas?

Livreira: Isso. Posso ajudar?

Freguesa: Então, eu tô aqui no site da livraria e queria que você me tirasse uma dúvida.

Livreira: Pois não, pode falar.

Freguesa: Então, eu queria saber qual é a diferença entre livro e eBook. Por que é tão mais barato?

Livreira: Você diz em relação ao texto?

Freguesa: Não... o que é um eBook?

(olha, tudo bem não saber o que é um eBook em 2014. até semana retrasada, eu nunca tinha feito o download de um. e até hoje eu nunca segurei nada que tenha sido fabricado pela Apple e tampouco sei o que é Tinder, Secret, 'Orange is the New Black' ou quem é quem em 'Game of Thrones'. porém, depois da explicação dada, a coisa desandou de um JEITO)

Freguesa: Ah, entendi. É um livro digital? Mas me diz, essas coisas aí que você falou...Ipad, tablet, eReader... eu baixo em algum site?

(rapaz)

Livreira: Não, você tem que comprar em alguma loja que venda eletrônicos. Algumas livrarias também vendem.

Freguesa: Ah... e se eu comprar esse tal de eBook no site de vocês, o prazo de entrega é igual ao do livro normal?

(ai, não, não quero mais brincar. vamos ficar com o tal do livro normal, por favor? ou, quem sabe, você poderia clicar no "tire todas as suas dúvidas" no mesmo site que pegou o nosso telefone)

Livreira: Não, não... você vai receber um e-mail com um link para baixar o livro, logo após efetuar o pagamento.

Freguesa: Hmmm, entendi. 

(é pra glorificar de pé?)

Livreira: Mais alguma coisa?

Freguesa: Agora vê aí pra mim se tem agora algum livro da escritora Mia Couto.

(precisava terminar com um clássico, né?)

manual prático de bons modos em livrarias: pra vida, freguesia: vamos tratar de ler o "manual de instruções" antes de ligar para as mocinha e os mocinhos do SAC? no mais, da próxima vez que alguém me perguntar onde fica a prateleira de eBook, vou subir no balcão e dançar assim.

Prazer



Freguês: Qual é a sua graça?

Livreiro: André.

Freguês (apertando a mão do livreiro): Foi um prazer conhecê-lo, Sidney!

manual prático de bons modos em livrarias: tudo tem limite, menos a internet e os fregueses de livrarias. um beijo, sidneys e sidneyas do meu coração.

Trololo



Pra quem não sabe, Hillé aqui trabalhou por quase um ano no setor de CD/DVDs de uma livraria aí. E pra quem acha que o delírio 'após dentista' só acontece entre estantes e pilhas de livros, certamente nunca presenciou situações maravilhosas como essa ou desconhece o clássico: "'Tem algum CD da Maria Callas?' 'Não é Maria Callas, é Mariah Carey'. POIS É. 

Freguês:  Moça, bom dia.

(Fazer a freguesia falar 'Bom dia' foi o primeiro milagre do nosso blog. O próximo será transformar o 'Bom Dia' em peixes e acabar com a fome universal bg)

Livreira: Opa, bom dia.

Freguês: Moça, eu tô procurando uma música, mas não lembro o nome do artista que canta. 

(Lá-Vem)

Freguês: Se eu cantar um pedacinho, você pode adivinhar? 

(Adicional por adivinhação, quem vai pagar o pato?)

Livreira: Mas meu senhor...

Freguês: Então, ela é assim:

(Impressionante, vocês não ficam nem vermelho. Eu só falto me esconder debaixo do balcão quando peço pra moça não colocar carne no meu Big Mac - e não me olhem com essa cara.)

Livreira: Não, conheço não.

Freguês; Como não???

(Moço, veja bem, na minha idade e no meu atual estado de espírito, Alcione é a única cantora possível, moço.)

Livreira: Nunca ouvi, desculpa.

Freguês: Mas ela é super conhecida, toca toda hora no rádio!

Livreira: Hhm, então o senhor poderia tentar ligar na rádio e perguntar para eles, não?

Freguês: Boa ideia! Você tem o telefone deles?

(Mas Hillé não aprende que dar corda é sempre/sempre/sempre um erro)

Livreira: Deles quem, da rádio?

Freguês: Isso! Você poderia me passar?

(ERROR)

Livreira: Mas eu nem sei qual é a rádio que o senhor escuta...

Freguês: Eu também não lembro. 

(Silêncio constrangedor velocidade cinco do créu)

Freguês: Tudo bem. Eu vou tentar anotar o nome da música e volto aqui pra comprar com você, tá?

Livreira: Tá certo.

(Leva um CD da Marrom, moço.)

manual prático de bons modos em livrarias: minha estranha looooucuuuuuraaaaaaaa é tentar te entendeeeerrrrr.

[#NãoVaiTerÁlbum]


Neymar, camiseta 73 da Seleção Internet de Futebol


Uéééé, voltou?! Voltei. O blog tá largadérrimo, né? Mais ou menos. Hillé... Tá, mentira, tá completamente abandonado. :( Mas agora você vai voltar? Vou. Hillé, Hillé... Vou mesmo. Promessa. Ah, a gente sentiu saudades, poxa. :~ Olár? Eu também senti saudades dos meus pasaros.do.canpo! E você continua trabalhando em livrarias? Que perguntinha, hein? Como é que eu posso me livrar das garras desse amor gostoso, me diz? É que a gente não te encontra mais em canto nenhum. O que os olhos não vêem, o coração sente (- Pessoa, Fernando). Como assim? Explico outra hora. Tá certo, e como você está? Hm, de camiseta, calcinhERRORERROR. Estou bem. :)


Mas então, depois de esclarecer todas as dúvidas da freguesia mais bombocada do pedaço, deixa eu contar que fui ali na livraria amiga comprar um livro de autoajuda para os dias inquietos e:

Freguês: Como é que uma livraria desse tamanho não tem o álbum de figurinha da Copa?

(Talvez porque, embora seja grande, a livraria ainda não tem estrutura suficiente para sediar um evento desse porte em suas estantes, meu senhor.)

Liivreira: Pois é, não tem.

Freguês: (inconformado):  Esse lugar já foi melhor, viu? Cadê a gerência?

(E quem quer saber de gerência no país da Copa, moço? No país da Copa a gente só quer saber da Família Hexa! Venha cá, vamos pitntar essa carinha linda, tome uma vuvuzela e um caça-palavra.)

Livreira (disfarçando rancor com simpatia): O senhor quer que eu chame a gerência para o senhor reclamar a falta de álbum de figurinha da Copa?

(Adorei a livreira? A técnica de falar/repetir o delírio do freguês em voz alta quase sempre dá bons resultados)

Freguês: Não, não precisa.

Manual Prático de Bons Modos em Livrarias: #VaiFuleco!

[Dicionário da Depressão]


depressão: espécie de panela angustiante


[amor compartilhado pela livreira tati leite]


Freguesa: Você tem dicionários?

(Não tenho dicionário, não tenho paciência, não tenho amor próprio. À parte isso, tenho em mim todo o sono do mundo)


Livreira: Ali naquela estante, senhora.


Freguesa: Mas aqueles dicionários têm o significado das palavras, né? Tem que ser um dicionário de português com o significado das palavras.


Manual Prático de Bons Modos em Livrarias: Dicionário bom é dicionário que ensina a fazer origami sem usar as mãos - e, sim, nós sabemos que existem vários outros tipos de dicionários, mas, bom, vocês entenderam o causo.

[universo em desencanto]

foto do tim maia porque sim



ding, ding, ding, porque o natal está chegando (em tempo: freguesia, façam suas compras pela internet e tenham a delicadeza de aparecer na livraria só para deixar o meu chocotone). mas então, sábado de sol? não, graças a deus. e se não tem sol a freguesia vai pra praia? não também. a freguesia vai pra: isso, vai pra livraria. e a freguesia vai pra livraria comprar livro? lógico que não. freguesia vai pra livraria comprar cd. acompanhem:

freguês: moço, tem algum cd daquele cantor... ele é negro e, hm, tem o cabelo comprido.

mocinho do cd: cantor... negro... cabelo comprido? e ele é brasileiro?

freguês: sim, brasileiro. cê sabe quem é?

(claro que sabe. ele só está repetindo sua pergunta porque quem trabalha em livraria gosta desse jeito 'chaves' de levar a vida)

mocinho do cd: não faço a mínima ideia.

(silêncio)

freguês: ele tá naquele programa lá... 

(aquele cantor lá, aquele programa lá. rapeize, assim vocês não colaboram com a manutenção do nosso sorriso 'salve, simpatia')

mocinho do cd: ...

freguês: ah, lembrei! é o CHARLES BROWN.

(você pensou no james brown? e no charlie brown jr.? a livreira aqui pensou nos dois e foi além, mas o mocinho do cd, sempre sagaz, pegou a mosca no ar)

mocinho do cd: não seria o carlinhos brown?

freguês: isso, carlinhos brown! tem algum cd dele aí? 

manual prático de bons modos em livraria: agradecemos ao 'the voice' pelo causo alcançado. 

Uma rodada de Deleuze pra galera





Quinta-feira pós-feriado. Livreira ainda está na batalha para se recuperar do carnaval fora de época (leia-se 'trabalhando de ressaca, com dores nos pés, na cabeça, mas sem deixar o movimento sexy de lado') quando o freguês coxinha, coxa creme, coxa nível hard (não, não era o rei do camarote), adentra a livraria.

Freguês: Moça, cê tem aí alguma coisa do Deleuze?

(e você aí jurando que o moço ia pedir algum da lista dos mais vendidos da Veja, né? é, eu também. olha o preconceito!)

Livreira: Sim, temos todos esses aqui (apontando para a pilha). Você tá procurando algum específico?

(freguês olha ao seu redor, coça o queixo e manda na lata)

Freguês: Olha, querida (QUE-RI-DA), eu vou mandar a real: marquei um encontro com uma moça aqui na livraria e eu tô ligado que ela adora ler... Daí eu queria que ela me encontrasse lendo alguma coisa que causasse IMPACTO.

(causar impacto? mas cê tá fazendo isso errado, moço. que tal o 'Big Penis book', meu amor?)

Livreira: Ah, entendi. Então serve qualquer livro do Deleuze?

(inclusive um que não tenha sido escrito por ele?)

Freguês: É, é... isso.

(livreira pega o primeiro Deleuze que encontra pela frente e entrega para o freguês. Ele senta na poltrona, abre o livro e faz a sua melhor pose INTELECTUAL POR UM DIA).

manual prático de bons modos em livrarias: Deleuze curtiu isso.

[marilda mandou um beijo]

marilda

ficar sem ter o que fazer em uma livraria é praticamente impossível. pode até parecer, mas não estamos sempre correndo de um lado para o outro porque somos integrantes de um grupo praticante de corrida alternativa. o negócio é que todo mundo quer ser amado por nós, portanto, freguês amigo, não adianta fazer cara feia quando pedimos "só um instante, por favor" (até porque cara feia só significa que você tem a cara feia). WELL, o ritmo é de bandfolia, carnaval todo dia, mas às vezes, rola uma pausa para falarmos sobre os últimos lançamentos importantes da literatura brasileira contemporânea. e é durante uma dessas pausas, que o freguês gente boa chega sem os freios.

freguês (gritando): TEM AÍ O LIVRO X?

(livreira e livreiro amigo se espantam com TAMANHA delicadeza e ficam sem qualquer tipo de reação)

freguês: TEM?

(livreiro, menos consternado que a livreira, sai para verificar o título em outro terminal. livreira, ainda sem jeito, volta a arrumar a estante de literatura, bem próxima ao moço)

freguês (olhando para o braço da livreira): QUEM É MARILDA, HEIN?


livreira: ma-ril-da, meu senhor?

freguês (pegando no braço da livreira): ESSA TATUAGEM AÍ NO SEU BRAÇO, HEIN? TÁ ESCRITO MARILDA. QUEM É MARILDA?

(às cinco da tarde, tudo o que a livreira aqui menos quer é um freguês desconhecido relando nela. livreira também acha deselegante essa história de ter que falar da sua tatuagem para alguém que nunca viu mais louco)

livreira: ah, é a minha mãe, senhor.

freguês: SUA MÃE??

(minha mãe???)

livreira: é, marilda é o nome da minha mãe. fiz a tatuagem para homenageá-la.

(criatividade mandou lembranças, hillé)

freguês: ...

livreira: ...

freguês: MENINA, E NÃO É QUE MARILDA ERA O NOME DA MINHA PAIXÃO? MAS ELA JÁ VIAJOU.

(mentira?)

livreira: sei...

freguês: AGORA ELA TÁ DESCANSADO, SABE?

(não sei, senhor. queria muito saber como funciona esse lance de descanso. descanso mental, inclusive. o senhor poderia me explicar? um desenho também pode me ajudar. gracias.)

livreira: sei...

manual prático de bons modos em livrarias: recadinho do justin para quem não sabe apreciar o bom silêncio de uma livraria e ~fala demais por não ter nada a dizer~. marilda também mandou um beijo pra essa galera. shhh.

[a princesinha]


véspera do dia das crianças. a mamãe, o papai, o vovô e a titia deixaram para comprar o presente de última hora? LÓGICO. e o livreiro vai ter ouvir um monte por não ter aquele livro ou outro? evidente. então o negócio é mandar o cavaco chorar e seguir atendendo a freguesia com aquele sorriso bonito de sastisfação.

freguesa: moça, vocês vendem diário para  menina?

(~diário para menina~)

livreira: não, a gente não comercializa diários, mas temos alguns cadernos e a garota pode usar como diário. quer dar uma olhada?

freguesa: pode ser.

(livreira leva a freguesa até o setor de papelaria e o cavaco começa chorar)

freguesa: moça, mas não tem nada pra menina aqui.

(ai, moça, menina não gosta só de rosa, vamos combinar?)

livreira: olha, tem esse aqui do 'pequeno príncipe', o que você acha?

freguesa: MAS EU JÁ DISSE QUE É PARA UMA MENINA.

(livreira puxa da memória aquele exercício de respiração que aprendeu ontem no youtube e começa a colocar em prática)

livreira: então, mas é 'o pequeno príncipe'... ele é um personagem querido por todo tipo de gente. é a história de (um et que foi devorado por uma cobra).

(livreira é interrompida pela freguesa)

freguesa (meio que bufando): bem que poderia ter a versão para meninas, né?

(uma letra para resumir o atendimento: Z)

freguesa: "a pequena princesa" seria o ideal. deixa moça, não vou levar nada não. 

manual prático de bons modos em livrarias: Z.

[vou de sedan]

(causo telefônico)

livreira: livraria xzyzaff, bom dia.

freguês: oi, bom dia. você pode ver se tem um livro aí na loja de vocês?

(UM? tô olhando aqui ao meu redor e tem vários, viu)

livreira: sim, e qual seria?

freguês: ah, é um livro pequeno, de um fotógrafo famoso... ele ficava aí perto do balcão do caixa.

(assim é fácil, mio chapa)

livreira: e o senhor sabe o nome do fotógrafo famoso?

freguês: não, não lembro... mas lembro que ele tinha um SEDAN na capa.

(um sedan: guardem essa informação. livreira tenta lembrar das últimas coisas que ficaram expostas no caixa - porque, né, decorar tudo o que já ficou em destaque na livraria é uma das nossas atividades complementares -, mas não lembra de ter visto NA VIDA um livro que tivesse um sedan na capa)

livreira (consultando amigo livreiro): vem cá, você lembra de algum livro de fotografia com um sedan na capa?

amigo livreiro: sedan?

(é, me abraça)

livreira: é, o cliente tá no telefone falando que viu um livro no balcão do caixa e que ele tinha um sedan na capa.

(amigo livreiro vai até o setor de fotografia e volta com a joia)

livreiro: olha, confirma lá com ele, acho que você está entendendo errado.

(sim, a livreira estava realmente entendendo errado. o freguês pediu um livro de fotografia com uma 'afegã na capa', mas a livreira, graças ao calor/caos/loucura pré-natal, entendeu 'sedan'. FUÉN)

manual prático de bons modos em livrarias: o delírio, ele é contagioso. protejam-se. 

[zzzZZZzz]



às vezes cansa, mas quarta-feira cansa mais. "tem descarga pra caneta?", "não, senhora, não vendemos carga para caneta". pois é. daí o freguês entra na livraria e começa a observar os livros em destaque na bancada de lançamentos. ele olha, olha, coça a cabeça, pega um, pega outro e, de repente, pega um título que desperta a sua atenção e vai até o livreiro amigo:

freguês: vem cá, você teria algum exemplar desse livro aqui que não tivesse sido manuseado por MÃOS HUMANAS?

(claro, e livros que não foram escritos por mãos humanas, interessa?)

manual prático de bons modos em livrarias: sim, tem freguês que JURA que temos uma segunda livraria no subsolo do mundo, com todos os livros fechadinhos ("ai, mas não tem um fechadinho?").  e freguês que pede pra abrir o único exemplar, mas quer levar fechado? hahaha, LINDOS VOCÊS. entendam: livro exposto é livro pra ser, sim, manuseado (com carinho) e vendido. por falar nisso, já compraram o livro do [manual] a preço de banana? e, não, ele não vai fechadinho, que fique bem claro.
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