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[não]

                 
                                                   zzZZzzzZzzz



- moça, chico buarque e vinicius de moraes são a mesma pessoa?
- não.

- oi, tem como você ver a programação do cinema, por favor?
- não.

- vocês vendem flauta?
- não.

- por favor, vocês vendem "protetor de tela" pra computador?
- não.

- vocês vivem mudando tudo de lugar, onde foi parar o café da livraria?
- continua no mesmo lugar.
- ah, então não mudaram?
- não.

- moça, onde fica a parte de material escolar?
- não temos.
- então aquela placa "volta às aulas" é propaganda enganosa?
- não.

- tem aquele livro novo chamado"danuza"?
- não, mas tem o "é tudo tão simples", serve?
- esse é o nome do livro? é que está escrito danuza tão grande na capa.
- não, não, não.

- lindinha, tem como me dar um desconto?
- não, o livro já está com um preço bom.
- ah, mas você não pode fazer nada por mim?
- não, eu só sou uma pessoa com um crachá no peito.
- nossa, que deprê! você ganha mal aí?
- sim.
- uns 700 reais?
- menos.
- NOSSA.

manual prático de bons modos em livrarias: não.

[livreira em seu dia de freguesa]



e depois da ressaca de ano novo e do carnaval com muita gente causando na telinha da tevê, o ano finalmente começou. logo, chegou o momento de colocar a livraria em ordem e cada livro no seu quadrado. enquanto organiza a estante de psicologia, livreira nota uma freguesa enlouquecida à procura do santo graal.

- oi, você precisa de ajuda?

(quem sou eu pra perguntar esse tipo de coisa, não é mesmo?)

- então, eu estive aqui ontem e não estou encontrando o livro que vi bem aqui.

(como não está encontrando? tô arrumando essa estante desse ontem, sua linda. a pergunta é: freguesa escondeu o livro sim ou claro?)

- hm, sei. e qual era o nome, você lembra?

- lembro sim, era o "sem medo de ter medo", sabe?

(livreira lembra do título, da cor da capa, do número de páginas e, principalmente, de ter visto o livro em algum lugar do maravilhoso mundo mágico da livraria, mas kd?)

- sei, sei qual é. engraçado, realmente estav...

(em menos de dois segundos, livreira recorda-se do crime inafiançável cometido por ela no dia anterior. envergonhada da cabeça aos pés, admite a culpa sem conseguir estabelecer contato visual com a freguesa)

- ah, olha ele aqui "escondidinho". é que eu tinha separado para comprar e deixei na minha reserva pessoal.

(freguesa completamente passada com o absurdo da situação, pega o livro e foge como se não houvesse show do morrissey daqui a alguns dias. vish)

manual prático de bons modos em livrarias: relutei em compartilhar o causo acima, mas como o amor impera nesse "espaço cultural", nada mais importante do que rolar essa sinceridade toda . mas, ó, continuem me amando e não esqueçam os bons modos: nada de esconder livros, crianças.
[gente normal]


contrariando as expectativas de muita gente que lê o blog, trabalhar em livraria não consiste apenas em atender uma freguesia muito louca de bala e querer morrer quando alguém pede "raízes abertas do brasil" ou a nova biografia do sr. fernando henrique, "8/80". não, senhoras e senhores, além de carregar pilhas de livros para lá e para cá, brincar de caça ao tesouro quando alguém resolve tirar algo do lugar, perder sábados, domingos e feriados, o livreiro precisa estar disponível e ser solícito o tempo todo, mesmo quando o bode da gripe te pega e o telefone toca.

- livraria x, boa tarde?

- oi, eu queria dsfklh et ç~f.

(livreira, que está sem voz há quase dois dias, pede para a freguesa falar mais alto)

- então, eu queria fklhkfhsafnsa,mf.

(pronto, agora além de parcialmente muda, a livreira também está surda, produção?)

- senhora, desculpe, mas não consigo entender o que a senhora está dizendo...

- MINHA FILHA, QUEM NÃO ESTÁ ENTENDENDO SOU EU. QUE VOZ É ESSA? DÁ PRA VOCÊ PASSAR O TELEFONE PRA ALGUÉM QUE SEJA NORMAL?

manual prático de bons modos em livrarias: claro, até porque ser normal, hoje em dia, é não ter educação nem na fila de recarga do bilhete único. parabéns, fregueses, vocês me matam de orgulho. só que não. 
[tirem as crianças da sala]

piquititico assim ó

minha gente, eu costumo redigir os causos que vocês me enviam, antes de publicá-los aqui no manual. é um cuidado que eu tenho, gosto de deixar todos com o mesmo formato e mimimi. sofremos de toc? sofremos. mereço ser amada ainda assim? mereço. no entanto, hoje recebi algo tão ________ (insira aqui o seu adjetivo psicodélico favorito), que não tive coragem de mudar uma vírgula sequer. e, olha, já adianto: o causo é polêmico e não deve ser lido, em hipótse alguma, por crianças menores de oitenta anos. sendo assim, tire a sua sandy da sala, pegue a sua pipoca caseira e venha ficar verde que te kero koko.

amor compartilhado pelo freguês diogo. ♥

"meu PRIMEIRO DIA como livreiro. loja lotada, evento de lançamento no fundo da loja e eu, novato sorridente, andando pela loja pra me familiarizar com o ambiente, seções etc. passando perto da seção de fotografia, um senhor de tipo 50 e alguns anos me chama:

- mocinho, mocinho, por favor.

(já começa aí, né. mocinho meu cu)

- q

- sobre o que é esse livro? *THE BIG PENIS BOOK*

(começo a tremer, obviamente, porque, né, oi, é um livro de PAU GRANDE SENHOR)

- então, é um livro assim, meio engraçado, de fotografias antigas de homens que têm.. ahm, digamos: homens avantajados, sabe? tem também dos seios e vai sair o da bunda.

- NOSSA, achei incrível.

dai o senhor começou a falar sobre a admiração que ele estava sentindo ao ver tal livro, e como era surreal e como ele duvidava que era verdade. comecei a me afastar, mas ele sempre me chamava pra mostrar no dedo algum DETALHE que ele tinha achado interessante. chegou a dizer que "esse aqui equivale a um fist fucking, não acha?"

no final das contas, só me lembro que o nego virava uma taça de vinho atrás de outra e ficava me rodeando. quando a loja acalmou, ele chegou em mim e disse que tinha gostado da minha camisa e tentou abir um botão. SIM, JURO. dai eu surtei, sai correndo, comentei com uma amiga livreira "TEM UM CARA ME ASSEDIANDO HELP" mas, né, af, novato. bom, me afastei do cara e subi pro mezanino (onde ficam os banheiros) e quando to descendo de novo, bingo. tá o velho na porta do banheiro com a benga de fora me chamando 'VEM CÁ, VEM'.

sim, o cara mostrou o pinto pra mim na livraria.
resultado: TRAUMA.

episódios parecidos se repetiram incontáveis vezes na minha vida de livreiro, como quando um homem casado queria sair comigo porque a esposa dele "não fazia direito" e o cara que fingiu encomendar um livro só pra eu anotar meu telefone no papel pra ele me ligar depois."


manual prático de bons modos em livrarias: avc eterno.
[sexta do freguês - dia 2]

relato da freguesa julia rocca, que pediu suco de maracaujá e, enfim:

freguesa: oi, eu queria dar uma olhada nos livros sobre o autor que eu estudo no mestrado. tem como você consultar pra mim? o nome dele é wittgenstein.

(ela me mostra na tela os livros e verificamos que não há nenhum deles disponível na livraria. tudo bem, normal, sem problemas, afinal wittgenstein não é assim tão fácil de achar)

livreira: você não quer dar uma olhada nos livros do heidegger? do heidegger a gente têm!
(cadê o orelhão pra gente ver a diferença entre alhos e bugalhos?)

freguesa: er... não. obrigada. deixa pra outro dia. por enquanto vou continuar estudando o wittgenstein mesmo.

manual prático de bons modos em livrarias: caros colhégas, a freguesa pede pra avisar que filósofos com nome esquisito não são tudo uma coisa só.
[tricô na livraria]

e aí? todo mundo foi passar o feriado no café da livraria? que beleza, que maravilha. pois bem, reuni alguns dos melhores depoimentos lá da nossa comunidade hippie para publicar aqui. não vou citar os nomes dos livreiros envolvidos no crime (a não ser que queiram), mas é tudo amor compartilhado por gente bonita daquelas bandas. acompanhem:


freguês: - moço, tem o apanhador de pipas?

livreiro: - no campo de centeio?

freguês: - ai, não sei, a menina falou apanhador de pipas. será que é esse?

(será que eu chego?)


***

freguesa: - boa tarde, tem o livro daquela menina famosa?

livreira: - mas qual menina?

freguesa: - aquele lá, o "anne frank, drogada e prostituída".

livreira: - não seria "o diário de anne frank?

freguesa: - acho que sim, mas ela não também não foi drogada e prostituta?

(poderia ser também "o doce veneno de anne frank". quer dizer)


**

freguesa: - tem "o vendedor de sonhos" do augusto cury?

(livreiro prontamente entrega o livro à freguesa)

freguesa: onde tem mais livros sobre simbologia?

(WHAT?)

**

freguesa: - sabe aquele livro do chuchu?

livreira: ...

freguesa: - é, aquele sobre a infância dele.

(mas desde quando tem biografia sobre o geraldo alckmin por aí, minha gente?)

livreira: - perdão, mas de quem a senhora está falando?

freguesa: - aquele cara famoso, PRESIDENTE da inglaterra.

(e a vontade de largar tudo e falar: não, marlene, vou pra casa)

livreira: - seria o churchill?

freguesa: - churchil? haha, vocês têm um sotaque tão engraçado.

(SABE)

**

livreira: - o sobrenome da senhora é souza com "s" ou com "z"?

freguesa: - claro que é com "s", né? caso contrário, seria ZOUZA.

(zouza total?)

**

freguesa: - moça, tens mad max?

livreira: - vamos ali na parte de áudio.

freguesa: não, é livro.

livreira: - você quer algum livro sobre o filme?

freguesa: - acho que é.

(livreira joga no sistema e encontra dois: um por encomenda e outro fora de catálogo)

freguesa: isso é impossível!, acabou de sair a nova edição desse livro. eu e meu filho vimos aqui na semana passada!

(enquanto a livraria tenta explicar para a senhora de que aquilo era impossível, ela bate o olho em algo e grita com cara de poucos amigos)

freguesa: ACHEI!

conclusão: era o vade mecum de direito. beijos.

manual prático de bons modos em livrarias: diálogos surreais, medo e delírio, memória inimiga, tudo junto e misturado, livros inexistentes... é, fregueses, o mundo gira, a lusitana roda, e vocês continuam iguais. ♥
[alô, mirtes? fala rápido, eu tô no orelhão!]


amor compartilhado pelo freguês v., dono absoluto do meu coração por ter enviado 215 causos de uma só vez ♥


freguês: boa tarde, vocês têm "orelhão"?

(a gente já chegou num estágio que... enfim, até explicar cansa. bóra ser educado e apenas responder a pergunta do jovem)

livreiro: olha, tem no shopping, senhor. é só seguir o corredor e virar à direita.

freguês: como assim, não tem aqui na loja de vocês?

(e a vontade de responder: aqui não, mas no mc donalds tem um com molho especial)

livreiro: não. não tem orelhão aqui, senhor.

freguês: COMO NÃO? vocês não vendem orelhão aqui?

(EU HEIN?! "como não?" oi? estamos falando da mesma coisa, bial?)

livreiro: vender... orelhão? cartão? ficha telefônica?

freguês: não, dicionário! aquele dicionário grandão!!!

(pedro de lara lá lá lá lá lá lá)

livreiro: ah, o aurélio. só um instante.

manual prático de bons modos em livrarias: fregueses alfabetizados na língua francesa, por favor, colaborem. nosso cursinho de idiomas é basicamente musical. obg.
[o livro roxo de jung]


- mocinho, por favor, você tem esse livro, só que roxo?

(sim, a freguesa estava apontando para "o livro vermelho". livreiro pensa em ter um avc, mas desiste da ideia e resolve desenvolver o assunto)

- como assim, minha senhora?

- então, é que eu estou decorando um ambiente e preciso de três metros de livro roxo. tem como você me arranjar esse livro grandão, só que roxo?

(esse livro grandão, só que roxo)

manual prático de bons modos em livrarias: ALÔ SAMU, MANDA UMA AMBULÂNCIA PRA ONTEM.
[dumb people x nice people]

amor compartilhado pelo freguês zé. :)

freguês: boa tarde, vocês tem o dvd x?

livreiro: sim, nós temos. qual o senhor quer, o "simples" ou o "duplo, edição especial"?

freguês: DUPLO...?! não, eu quero a versão simples mesmo. até parece que eu vou pagar mais caro para ver o filme duas vezes.

manual prático de bons modos em livrarias: i die. juro. i die.
[alô, mirtes?]

amor compartilhado pela freguesa lu. :)
(atendimento telefônico)

livreira: livraria x, boa noite.

freguês: oi, cláudia!

(quando o freguês inventa um nome para você é porque a conversa vai ser BOUA)

livreira: pois não?

freguês: então, cláudia, estou procurando um filme, aquele "o gladiador" com o ator himan [pronúncia do freguês: "raimen"]

livreira: olha, eu tenho o filme "gladiador" com o russel crowe, é esse?

freguês: mas esse tem o himan?

(não, meu senhor, o "himan" casou com a "she-ra"* e tiveram mais filhos que a angelina jolie e o brad pitt)

livreira: não, não tem.

freguês: e, cláudia, você sabe qual é a diferença entre os dois?

(é muita cláudia pra pouca cadeira, vou te contar uma coisa)

livreira: sinceramente, eu não tenho idéia do que seja "himan", mas se o senhor quiser, eu deixo reservado o do russel crowe, ok?

manual prático de bons modos em livrarias: quando eu era mais nova e me sentia deprimida, eu ligava para um certo provedor de internet para tentar cancelar a assinatura. daí eles me faziam acreditar que eu era importante e eu desligava o telefone com o ego lá em cima e mais dois meses de internet gratuita. ALOFREGUÊS: está se sentindo triste? abandonado? carente? entediado? deixe disso! ligue para nós. somos melhores que a cvv, pode apostar.

*incesto de leve, pode? pode. valeu, freguês @luizgvt pelo toque. :)
[tudo junto e misturado - parte 9]


- oi, vocês já receberam o novo cd solo do eddie vedder, o BUNDALELÊ SONGS?

manual prático de bons modos em livrarias: o vocalista do pearl jam acabou de confirmar sua participação especial no carnaval da bahia de 2012. estamos de olho.
[globalização, a gente vê por aqui]

amor compartilhado pelo freguês matias minduim. ♥



(cenário: livraria prestes a encerrar as suas atividades daquele dia. como a gente já falou aqui, final de expediente é o momento em que os fregueses adoram testar a nossa simpatia. para não fugir à regra, um casal surge no local à procura de confusão. livreira, na tentativa de não estender o horário de trabalho, resolve abordar a freguesia)

- olá, precisam de ajuda?

*silêncio*

(livreira, acostumada com os turistas estrangeiros, que passeiam pelo centro de são paulo, tenta uma novo approach)

- speak english?

*silêncio*

- parlez-vous français?

*silêncio*

- sprechen deutsch?

*silêncio*

- parla italiano?

*silêncio*

(senõr! comofas/ em libras? livreira, que não consegue arrancar um sorriso sequer dos fregueses, no desespero, solta em língua pátria)

- afinal, que língua vocês falam?

(um dos fregueses, aparentemente aterrorizado, meio sem jeito, responde)

- ér, português?.

(hahaha)

manual prático de bons modos em livrarias: só eu acho que o grego deveria ser adotado como língua oficial em todas as livrarias e bibliotecas e sebos desse meu brasil?
[japanese for dummies]

amor compartilhado pelo freguês célio ishikawa. ;)


estande de uma livraria x em um evento literário qualquer. freguês, fã da arte de transformar uma folha de papel em algo psicodélico, pergunta ao livreiro responsável pelo local:

- vocês trabalham com livros de origamis?

(livreiro, pronto para demonstrar tudo o que aprendeu no seu curso "aprenda inglês e japonês em 15 minutos", responde)

- sim, nós temos livros de oriGAMES.

(o-ri-guei-mes, senhores, o-ri-guei-mes)

manual prático de bons modos em livrarias: tá com dúvida na pronúncia? não sabe se é camus ou cami o autor de "o estrangeiro"? ora, a ana flávia (ou "o google tradutor") nasceu só pra te ajudar. beijos.
[padre paulo]


- moça, qual é o nome do último livro do paulo coelho? é um que vai virar filme.

(livreira, que não está num bom dia, só de ouvir o nome "paulo coelho" tem vontade de sair correndo pelo mundo, não pensa antes de responder)

- ágape.

- ágape? acho que não, viu, moça.

(ai, freguês, sério, quer ensinar o padre nosso ao vigário?)

- você não quer o último? então, é o ágape.

- mas o ágape não é o do...

(livreira, constrangida até o último fio de cabelo, não permite que o freguês termine a frase)

- AÉVERDADE! O NOME DO LIVRO É O ALEPH!

manual prático de bons modos em livrarias: certo, podem rir da minha cara, mas, lembrem-se: um dia da caça, outro do caçador, seus lindo.
[cubas, brás - literatura fantástica]

- manolo, vamo parar cás dorgas/


freguês 1 (segurando um exemplar de "memórias póstumas de brás cubas): esse livro do brás cubas é bom?

freguês 2: sim, é muito bom, você nunca leu?

freguês 1: não, mas esse tal de brás cubas escreveu só esse livro?

(HAHAHA, velho)

manual prático de bons modos em livraria: machado de assis me ligou ontem e disse adorar ser o autor mais lembrado pelos fregueses alucicrazys da livraria. tâmo junto, machadão, tâmo junto.

[trollando o namorado]


freguesa: - moça, fora todos esses (imagem acima), existe mais algum do pedro bandeira, da coleção "os karas"?

livreira: não, não tem. é pra você?

freguesa (envergonhada): não, é pro meu namorado (que estava ao lado da freguesa)

namorado da freguesa (e seus 25 e poucos anos): EU JÁ LI TODOS.

freguesa (envergonhada, mas sem deixar a grosseria escapar entre os dedos, rebate): cê quer uma medalha por isso?

(livreira acompanha tudo em silêncio, sem mover um único músculo do rosto. tenso)

manual prático de bons modos em livrarias: depois cê não sabe porque tá aí sozinho no dia dos solteiros, né? mimimi.
[será que ele é?]



(sábado de carnaval em agosto. AE! pura folia. livreiro atarefadíssimo, com milhares de livros para guardar, cliente para atender, telefone tocando, e-mails para responder, faxes para arquivar, entre outros. num momento de aparente calma, resolve guardar livros de ficção científica, para aliviar os balcões e repor as compras das fãs apaixonadas de vampirinhos. enquanto guarda, começa a ouvir um assobio e, ao olhar para o lado, vê um senhor idoso, todo bonachão, que vira para si e diz:)

- é o canto do uirapuru, só canta uma vez por ano.

(oi? oi, vem cá, alguém perguntou alguma coisa? livreiro, atônito, continua guardando os livros. o idoso, aquele danado, todo malicioso, não satisfeito, pega um livro de uma mesa qualquer e mostra a capa ao livreiro)

- hm, "ELAS". "ELAS". alguns gostam delas, mas alguns gostam deles. não é?

(livreiro, todo trabalhado na sinceridade, não deixa barato)

- eu gosto deles.

(o idoso, que já estava próximo à saída da loja, vai embora. livreiro sente que, em breve, ele voltará com um buquê de flores. ♥)


manual prático de bons modos em livrarias: hahahah gente. tô rindo até agora, licença.
[tudo junto e misturado - parte 7]




- oi, tem o livro "os homens que não amavam as mulheres super poderosas"?

- q/

- é, é um livro muito bom.

manual prático de bons modos em livrarias: não duvidamos. jamais.
[freguês da vez - dona h.]





dona h. é uma de nossas freguesas carimbadas. todo final de semana ela vai até à livraria e gasta 85 salários mínimos em livros. ela já disse uma vez: "compro, mas não leio". é que dona h. está guardando para quando não puder mais sair de casa, para quando a "idade chegar". é, bem creize. uma vez, dona h. ficou 40 minutos conversando comigo e, embora eu AME conversar com a freguesia, nosso bate-papo foi basicamente sobre o nada. daí eu quis morrer e falei que precisava ir para uma reunião. haha. então hoje, sabadão, dona h. apareceu por lá, como de costume. nosso encontro foi assim:

- oi, qual dos dois é o último do nicholas sparks?

(freguesa dona h. pergunta segurando "o milagre" e "um amor para recordar", os dois últimos livros publicados do autor)

- é "o milagre", dona h.

- ai, menina, tô tão indecisa. é que eu já li "um amor pra recordar" e não sei qual dos dois eu levo.

(ô dona h., como é que dá pra brincar com uma joselita quiném a senhora? alalá alalá alguém avisa?)

- então, se a senhora já leu "um amor pra recordar", talvez seja interessante levar o outro, não?

- ai, será?

- dona h., licença, preciso ir para uma reunião.

manual prático de bons modos em livrarias: pegaram? "preciso ir para uma reunião" é o novo "leave bookseller alone".
[xerox e copiadora]



- OI TUDO BEM VC TEM XEROX HOLMES.

assim mesmo, sem vírgula, ponto de interrogação, nada. em um só fôlego, a freguesa tirou a coragem de seu peito e pediu, quase gritando: x e r o x h o l m e s. como lidar, platéia? alô, produção? oi, chama o síndico?

manual prático de bons modos em livrarias: sinceramente? depois do repórter 6, eu não fico surpresa com mais nada. se meu gato começar a conversar comigo neste exato momento, eu vou responder, assim, sem nenhum deslumbramento. porque às vezes eu acho que meus chefes contratam atores para proporcionar momentos assim. se você é um desses atores que sempre visitam a nossa livraria, saiba, sua fisionomia jamais será esquecida. cuidado.
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